SIMBOLISMOS OCULTOS DO OVO

Na cosmologia da Deusa o ovo é um símbolo universal da criação do mundo pela Grande Mãe, manifestada como uma “Deusa Pássaro”. Em vários mitos das antigas culturas da Ásia, Polinésia, África, do norte europeu e das Américas, encontram-se descrições semelhantes do nascimento do universo, quando ele emerge de um ovo cósmico, atribuído à fértil força geradora feminina, a Grande Mãe.
No Egito, a deusa Hathor se metamorfoseou na “Gansa do Nilo” e pôs um ovo dourado do qual nasceu Rá, o Sol, o hieróglifo egípcio para ovo sendo o mesmo do embrião humano. Nos rituais egípcios, o próprio universo era visto como o ovo cósmico criado no início dos tempos. Nos sarcófagos aparecia um ovo alado flutuando acima da múmia e levando a alma para renascer em outro corpo.
Os celtas também reverenciavam a “Mãe Gansa” e os havaianos acreditavam que sua ilha surgiu do ovo de um gigante pássaro. Na mitologia grega, Nyx, a deusa da noite, foi fecundada pelo vento e pôs um ovo prateado do qual surgiu a Terra. A lenda finlandesa da criação atribui à deusa Ilmatar - que flutuava sobre as águas primordiais- a criação do Sol, do céu e da Terra, a partir do ovo posto sobre seus joelhos por um misterioso pássaro celestial. Os índios Cahuilla descrevem a criação do mundo surgindo de uma substância cósmica branca, nascida da escuridão; atingida por um raio de luz, esta massa amorfa gerou dois ovos dos quais surgiram um casal de gêmeos divinos, que criaram a Terra e todos os seres vivos. Os índios Omaha acreditavam que no início não havia nada além do silêncio, mas um grande pássaro-serpente apareceu de repente e deixou cair um ovo, que ficou flutuando sobre as águas e dele surgiu a vida.
Os mitos gregos associavam diversas deusas com o ovo cósmico, como por exemplo, Leto, que, fecundada por Zeus, gerou um ovo misterioso do qual nasceram os gêmeos Apollo, representando o Sol, e Ártemis simbolizando a Lua. O historiador  Hesíodo relata como a “Mãe da Noite” (o vazio ou abismo cósmico, o espaço infinito), que antecedeu à criação e gerou todos os deuses, criou o “Ovo do Mundo” e de suas metades surgiram o céu e a Terra. Em outra versão , deste ovo (identificado com a Lua) surgiu Eros (o amor), que colocou o universo em movimento e contribuiu para a proliferação da vida. O “Ovo do Mundo” é o símbolo microcósmico do protótipo macrocósmico, “a mãe virginal do caos”.
Para os hindus, o ovo cósmico era a própria criação; no inicio do mundo não existia nada até aparecer um grande ovo, posto por um enorme cisne dourado e que depois de incubado durante um ano se abriu em duas metades, uma dourada, outra prateada- o céu e a terra -, enquanto as membranas se tornaram montanhas, nuvens, rios e mares. Os antigos chineses atribuíam o nascimento do primeiro homem saindo de um ovo posto pelo “Grande Pássaro” Tien.
Pelo fato que o ovo personifica a essência da vida e seus vários estágios de desenvolvimento, desde a antiguidade os povos lhe atribuíram poderes mágicos, tanto para criar a vida, quanto para prever o futuro. Os ovos simbolizam fertilidade, nascimento, renascimento, longevidade e imortalidade; ingeri-los significava absorver suas qualidades, assim como lhes era atribuído o dom de fertilizar a terra. Alguns povos tinham tabus religiosos, filosóficos ou ligados a crendices e superstições, associados com a alimentação com ovos. Os romanos destruíam as cascas dos ovos que eles tinham comido para evitar que fossem feitos feitiços com eles. 
Os ovos são símbolos da Lua, da Terra, da criação, do nascimento e da renovação. A iniciação nos Mistérios Femininos é vista como um renascimento, análogo ao ato de sair da casca. O círculo, a elipse, o ovo, o ventre grávido são símbolos da plenitude misteriosa da gestação e da criação. O centro de um círculo é um espaço protegido e seguro, semelhante à escuridão do ventre e do ovo. Inúmeras estatuetas representam as deusas neolíticas, associadas com a Lua ou o ovo. Os alquimistas consideravam o ovo filosofal como o receptáculo de todos os elementos da vida, da matéria e do pensamento. O ovo personifica o poder de nascer através da fecundação exemplificado pelo óvulo, contendo em si todos os elementos essenciais para o seu desenvolvimento. A presença de ovos nos sonhos deu margem a variadas interpretações, os que apareciam inteiros prenunciavam boa sorte, casamento, gravidez ou herança; se fossem quebrados anunciavam brigas, perdas e separações.
Um provérbio latino – omnum vivium ex ovo – resume a antiga sabedoria de que “toda a vida se origina do ovo”. Os ovos têm sido símbolos milenares da fertilidade, nascimento, vida e eternidade. 
Oferendas de ovos de argila foram encontradas em túmulos da Idade da Pedra na Rússia, na Suécia, nos países eslavos e mediterrâneos, com objetivo de assegurar a vida pós-morte. Os antigos hebreus comiam ovos após os enterros, para garantir a continuidade da sua linhagem e simbolizar a vitória da vida sobre a morte. Com o passar do tempo, o ovo tornou-se símbolo da primavera, do renascimento da vegetação e também do “Novo Ano” para algumas tradições religiosas, mas sem referência à sua antiga origem. A reverência pelo ovo é justificada pela sua forma e pelo seu mistério, sua forma elíptica descrevendo o movimento de todos os corpos celestes e a esfera de luz que envolve as coisas vivas; é na forma ovóide que a potência do espirito se manifesta na matéria. A gema do ovo representa a energia solar, o princípio masculino, enquanto a clara é a Lua e o eterno e sagrado feminino.
Detentor do potencial da energia criativa da vida, o ovo foi usado de forma mágica por vários povos, bem como nas práticas europeias e africanas de exorcismo e cura. Os sacerdotes druidas Ovates, vestidos com túnicas verdes (a cor da vida) trabalhavam em círculos mágicos. Nos festivais de primavera dos povos nórdicos e celtas, os ovos eram oferendas tradicionais para as deusas Eostre e Ostara, assim como nos rituais do Oriente próximo para Astarte e Ishtar. Os antigos zoroastrianos (adeptos de uma religião monoteista fundada na antiga Pérsia pelo profeta Zaratustra, a quem os gregos chamavam de Zoroastro ) pintavam ovos para sua celebração do Ano Novo – Nawrooz- que coincidia com o equinócio da primavera. Tingidos de vermelhos, eram enterrados no solo para fertilizá-lo; oferecidos às mulheres tinham como objetivo aumentar a sua fertilidade, presenteados às crianças visavam ativar seu crescimento.
Os cristãos consideram o ovo um símbolo da ressurreição, enquanto dormente ele contém a nova vida dentro de si.
Nas igrejas Ortodoxas e Greco-católicas os ovo são pintados de vermelho na Páscoa para representar o sangue de Jesus vertido na cruz.
A casca do ovo simboliza a tumba fechada, cuja abertura representa a sua ressureição da morte.
Os ovos da Páscoa são bentos pelos padres no fim da Vigília Pascoal (sábado de Aleluia) e distribuídos aos fieis. As famílias trazem cestas com ovos tingidos e comidas típicas (roscas, pães trançados, bolos) que também são abençoadas. Na segunda ou terça feira depois da Páscoa, ovos abençoados são levados aos cemitérios e ofertados aos mortos com o cumprimento tradicional “Cristo ressuscitou”. Existe uma lenda no leste europeu, que afirma que Maria Madalena teria trazido ovos cozidos para partilhar com as mulheres na tumba de Jesus e que eles se tornaram milagrosamente brilhantes quando ela teve a visão do Jesus ressuscitado. Outra lenda conta que, depois da Ascensão, Madalena teria ido para o imperador de Roma cumprimentando-o com a saudação “Cristo ressuscitou”, mas ele retrucou que isso era tão irreal, quanto um ovo sobre a mesa dele fosse vermelho. Assim que acabou de dizer isso, o ovo imediatamente se tornou vermelho.
No folclore de vários povos europeus existem crenças ligadas ao ovo, considerados símbolos de fertilidade, humana ou animal. Até o século 17 na França, a noiva devia quebrar um ovo na soleira da sua casa, para assegurar sua fecundidade. Os antigos eslavos e alemães untavam seus arados antes da Páscoa com uma mistura de ovos, farinha, vinho e pão, para atrair assim abundância para as colheitas. Na Inglaterra antiga, crianças percorriam as casas no Domingo de Ramos pedindo ovos; recusar este pedido era um mau presságio para os moradores. Usavam-se ovos também nas oferendas para os mortos, colocados juntos deles no caixão ou sobre os túmulos. Os judeus da Galícia consumiam ovos cozidos ao retornarem dos enterros, para retirar as energias negativas. Na “Noite de Walpurgis” (30 de abril), o Sabbat saxão celebrado nas montanhas Harz da Alemanha (consideradas local de reunião das bruxas), os casais enfeitados com guirlandas de flores dançavam ao redor de uma árvore decorada com folhagens, fitas e ovos tingidos de vermelho e amarelo. Um tipo especial de divinação com ovos – chamada de ovomancía - era praticada pelas mulheres europeias nos Sabbats Samhain, Yule ou Litha, deixando cair a clara em um copo com água e fazendo vaticínios pelas formas criadas. Os desenhos tradicionais pintados nos ovos reproduzem o movimento da energia em forma de círculos (o ciclo eterno da vida), ondas (água), pontinhos (estrelas), escadas (os planos da existência), cruzes (a união do masculino com o feminino, da matéria com o espirito), linhas, estrelas, nós, triângulos (a deusa tríplice), quadrados (a terra), rodas, espirais (proteção), flores, trevos, árvores. Eles serviam como pontos de fixação para atrair energias de renovação, saúde, prosperidade e proteção. Na Ucrânia e nos países dos Bálcãs, a arte de pintar ovos (chamados pessankas ou pysanka) é muito antiga, reservada às mulheres e preservada até hoje. Os ucranianos - que foram cristianizados apenas no ano 988 - ainda preservam seus antigos costumes e o simbolismo pagão das pessanki.
Na Romênia, antigamente os ovos eram tingidos com infusões vegetais – cascas de cebolas, beterraba, salsa – (atualmente usam-se tintas) e pintados com formas geométricas estilizadas, simbolizando riqueza, fertilidade, amor, vida longa, proteção, e felicidade. Quando feitos de madeira eram decorados de maneira mais rebuscada, com aplicações de contas minúsculas e coloridas. Na Romênia, Rússia e Grécia ovos cozidos ou esvaziados do seu conteúdo são até hoje decorados com motivos tradicionais, dados de presente ou usados em competições no domingo da Páscoa. Ganhava aquele que conseguia quebrar os ovos dos concorrentes batendo de leve neles, mas desde que não rachasse o seu. Joias em forma de ovos, feitas para a Corte Imperial russa pelo famoso artista Fabergé, eram cravejadas de pedras preciosas ou continham dentro de si anéis e miniaturas como pássaros, relógios, barcos ou casas. Ainda se encontram este tipo de ovos-miniaturas, usados como enfeites ou nos altares das mulheres que seguem a Tradição da Deusa e que os usam como cofres mágicos para guardar e “chocar” seus desejos e pedidos, neles colocados na comemoração do Equinócio Vernal.

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