PRETO VELHO - A HISTÓRIA DE UM RETRATO

Nesse 13 de Maio, dia da Abolição da Escravatura, dos Pretos Velhos e de Nossa Senhora de Fátima aproveito para prestar minha homenagem aos queridos pretos velhos compartilhando o texto abaixo que conta a história desta imagem:

imagem: pintura na madeira

Meu preto velho e fiel companheiro

Um dos maiores pintores brasileiros nasceu em Itu e faleceu em Piracicaba (1850-1899), tendo estudado Belas Artes no Rio de Janeiro, sendo aluno de Vitor Meireles. Ganhou do governo brasileiro, o então Imperador D. Pedro II, uma viagem de estudos a Paris, onde permaneceu por seis anos. Notabilizou-se após sua volta retratando tipos e costumes brasileiros, principalmente paulistas com suas gravuras “Cozinha caipira, Picando fumo e O Violeiro”.

Chamava-se Almeida Júnior . Não apareceu até hoje quem melhor do que ele eternizasse nas telas o nosso verdadeiro e autêntico caipira como aquele que aparece pintado na tela de cócoras e com uma faquinha cortando o fumo para fazer um cigarrinho de palha, bem a gosto do fumante da zona rural, e também um violeiro tão típico e bem diferente destes que aparecem nas atuais duplas sertanejas, salvo um ou outro que marca presença no programa Viola Minha Viola da Inezita Barroso.

Mas mudando de artista bom no pincel em retratar gente simples, eu tenho um quadro que meu amigo Nivaldo Ramos (infelizmente já falecido), encomendou a um presidiário da Penitenciária de Presidente Epitácio preparasse para mim, a fim de ser colocado na minha sala de visitas de quando eu residia na Rua Prudente de Morais, em Presidente Prudente.


O trabalho do presidiário, feito com o maior esmero lá na carpintaria da Penitenciária citada, consistia em colar num pedaço de tronco de uma árvore, previamente cortada e mostrando o seu cerne, um quadro de uma pintura a óleo retratando um preto velho. Foi um trabalho artístico e artesanal onde a figura simpática do preto velho em todos os seus detalhes é realçada por ter ele aplicado uma camada de cera que deu mais brilho à figura humana.

imagem: detalhe quadro de São Jorge, moringa de água e caneca
Nota-se que o preto velho que serviu de modelo foi retratado de perfil em um cômodo de sua casa de tijolos que se realçam. Num canto superior pregado à parede há uma imagem de São Jorge Guerreiro e sobre a mesa tosca de madeira uma moringa com água e uma caneca, ambas feitas de barro.

imagem: detalhes do preto velho
O preto velho tem uma vasta cabeleira branca, uma fronte larga e enrugada, olhar fixo, um nariz afilado e ostentando um bigode espesso sobre o lábio superior da boca na qual está fumando um cachimbo de barro com haste de madeira. O cachimbo está preso entre seus dedos indicador e polegar da mão direita e dele alteia uma fumaça branca espalhando-se pelo ambiente.

Ele veste uma camisa de algodão de mangas compridas e no pescoço carrega um cordão ao qual está presa uma medalha possivelmente com uma imagem à distância indecifrável. Em sua mão esquerda segura uma bengala feita de um pau roliço e comprido, da qual deve se servir para as suas caminhadas. Sua cabeleira branca se une a uma barba que se liga ao bigode e cobre a face, o queixo, divisando com o pescoço.

imagm: detalhe da assinatura V.Caruso
Considerando a obra já ter sido feita há mais de vinte anos nem tudo nela é perfeitamente visível como, por exemplo, no seu rodapé onde se lê V CARUSO (*vide texto em negrito na final da postagem). 
Aí fica a dúvida sobre o nome exposto se seria do autor da pintura que eu não consegui identificar em pesquisas feitas ou do presidiário. Este ao que se sabe foi um dos presidiários mortos no levante de presos na penitenciária de Presidente Venceslau, cujo número ao que se comenta foi bastante significativo embora não se compare em quantidade àquele número de mortos do Carandiru.

Agora que o quadro do preto velho acha-se exposto em minha casa em Guarulhos eu tenho por ele a maior estima, a mesma que sempre tive em consideração a sua veneranda figura, bem como pela lembrança do meu amigo saudoso e já falecido, o Nivaldo Ramos que o encomendou ao autor da adaptação da figura ao cepo da árvore, o presidiário de nome ignorado, que pagou com a vida, durante o cumprimento da pena na rebelião de presos em que foi envolvido, quem sabe até ocasionalmente, seja, sem ter participado ativamente dela, figurando talvez como uma mera vítima.

Salve os Pretos Velhos!

Em tempo, Feliz dia das Mães!

(*)O texto abaixo é parte do comentário deixado no blog por Rubens Caruso Jr.
O Preto Velho é uma reprodução, uma "gravura", como se dizia antigamente, de uma obra do pintor Vicente Caruso.
Os Caruso são uma família de artistas brasileiros, cujas biografias resumidas estão em www.pintorescaruso.com.br

Comentários

  1. Olá. O Preto Velho é uma reprodução, uma "gravura", como se dizia antigamente, de uma obra do pintor Vicente Caruso.
    Os Caruso são uma família de artistas brasileiros, cujas biografias resumidas estão em www.pintorescaruso.com.br .
    Acho que agora dá para esclarecer o "enigma".
    Grande abraço e estou à disposição em rcaruso@pocos-net.com.br .

    Rubens Caruso Jr.

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    Respostas
    1. Rubens, agradeço pela explicação.
      Com certeza esta é uma obra belíssima e por tanta beleza e paz que ela me transmite, ousei postá-la no blog. Aproveito também, para te dizer que vou acrescentar na postagem este seu comentário.

      Volte sempre.
      Abraços.

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  2. eu tenho esse quadro a minha familia ja tem ela a mais de 20 anos ok

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    Respostas
    1. Olá Ana Paula!

      Esta imagem é realmente bela.Sorte de vocês poderem tê-la aí em sua casa.

      Abraços.

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