ENSINAMENTOS DO MESTRE

Bhagavan Sri Râmana Mahârshi


HARMONIA NA VIDA*
Swami Dayananda

Uma pessoa se conhece a si mesmo e é conhecida por outros através de seus marcados gostos e aversões. No entanto, nem todos estes são conscientes, estando muitas vezes presentes a nível do inconsciente e não sendo conhecidos pelas próprias pessoas. E a pessoa é dependente desses gostos e aversões. As suas expressões na vida em termos de seus objetivos e respostas a situações são determinadas por seus gostos e aversões. Enquanto gostos e aversões mantiverem a pessoa sob controle, haverá dependência de determinadas situações. A pessoa deseja a ausência de situações indesejáveis e a presença de situações desejáveis. Contudo, ao mesmo tempo, há um amor pela liberdade, por independência. Amor por liberdade é encontrado até mesmo em uma criança. Quando é dito à ela : “- Não faça isso !”, ela tentará insistir e se não for possível começará a chorar. A criança que começa a andar, ao ficar em pé, quer andar sozinha sem nenhuma ajuda, mesmo sabendo que poderá vir a cair. O amor pela liberdade é inato e ninguém está satisfeito até que seja totalmente livre. Ninguém é bem sucedido a não ser que esta urgência pela liberdade seja satisfeita.

Este amor pela liberdade, pela independência, acoplado ao fato de que a pessoa está amarrada a seus gostos e aversões, gera uma sensação de desemparo, pois a liberdade, a adequação, depende da satisfação dos gostos e aversões pessoais. Então a pessoa torna-se desesperada e frustrada; e, se ainda não o é, é por causa da esperença de satisfazê-los. Agora, se a pessoa recebe o seguinte conselho: abandone todos os gostos e aversões, isto não irá adiantar. Ela desenvolverá um novo gosto: “Eu não devo ter gosto e aversões” e uma nova aversão: “Eu sou um inútil, pois não consigo me desfazer deles”. O conselho, claro, é um conselho espiritual. Este conselho é inútil porque ninguém mantém gostos e aversões por escolha, a pessoa é gostos e aversões!

Os Vedas dizem: “Você é colocado em uma certa situação, em um certo esquema. Cumpra o seu papel como uma pessoa relativa”. Qualquer relacionamento envolve mais de um. Aqui há o indivíduo e o mundo. Como indivíduo a pessoa vê a si mesma como uma pessoa relativa. Este é um fato inevitável. Podemos dizer que há relacionamentos próprios e relacionamentos impróprios. Você vê a natureza por vários aspectos e você encontra um certo tipo de arranjo. Animais, árvores, plantas, pássaros, etc, de um determinado ambiente, são específicos ao local onde eles se encontram. Por exemplo, o camelo é uma maravilha; muitas das regras de comportamento que são encontradas na maioria dos animais, não são observadas em um camelo, pois só assim ele poderá sobreviver num deserto. Ele se mistura, adapta-se ao seu ambiente. Todas as plantas e animais estão em harmonia com a natureza; eles foram programados para isso. Possuidor da capacidade de escolha, o ser humano tem que decidir o que é certo e o que é errado em qualquer situação. Quando a escolha é adequada, a pessoa está sintonizada com a situação, está sintonizada com a ordem - a ordem do adequado e inadequado. Esta ordem é chamada DHARMA.

Eu quero viver e fazê-lo de forma feliz. Eu não quero que o meu vizinho faça qualquer coisa que me perturbe. Da mesma forma eu não faço nada que venha a atrapalhar a vida do meu vizinho. Esta é a base para uma ética de bom-senso. Através de considerações semelhantes eu não ofendo, engano ou iludo os outros ou roubo coisas de alguém. Um grande número de valores torna-se natural quando observo a mim mesmo. Aquilo que eu desejo torna-se um valor pessoal e aquilo que eu não desejo torna-se uma coisa ou situação a ser evitada. Tudo isso é confirmado pelos Vedas.

Você vê a si mesmo com um filho, uma filha, etc. Você não tem escolha sobre esse fato. Você não pode dizer “Eu não ligo para o mundo, eu não ligo para nenhum relacionamento”. Você está bem no meio do mundo, você tem tudo a ver com esse mundo. Em sua forma de lidar com o mundo há expressões apropriadas e há expressões inapropriadas. Se você age adequadamente em um relacionamento, você é um karmayogi, você se afina naturalmente com toda a criação. Porém os Vedas vão um pouco mais longe. Eles dizem que você não é apenas um filho, uma filha, etc, mas que você também é um participante de tudo o que há no universo, que inclui o sol, a lua, o ar, a água, o fogo, as leis e uma tradição de conhecimento. Você é o beneficiário de tudo isto e você tem que reconhecer este fato. Sua vida diária deve consistir em ações que são esperadas de você como uma pessoa relativa enquanto você faz seus diferentes papéis, tais como: pai, mãe, filho, filha, vizinho, cidadão, etc. Há certas ações que você deve fazer. Você não é uma pessoa isolada; você está relacionado com toda a criação. Todo o universo pulsa em um ritmo. Reconheça todas essas forças em harmonia e a você mesmo como parte desta. Quando você se mantém em harmonia com o ambiente ao seu redor, você está bem. Não seja indiferente ao nascer do sol; seja sensível, levante-se antes do nascer do sol e dê boas vindas a ele. Levante suas mãos para o alto e ofereça a sua gratidão ao Senhor na forma do sol. De forma semelhante aprecie as nuvens, o oceano, os rios, as montanhas, as plantas, as árvores. Diariamente ofereça suas preces aos deuses: Agni, Varuna, Soma, etc..., que são expressões fenomênicas do próprio Criador.

Você desfruta de uma cultura e tem acesso ao conhecimento transmitido pelas gerações que o precederam. Você é capaz de olhar à frente, pois você está amparado pelo ombro de gigantes. As pessoas que já morreram estão certamente presentes em você. Portanto, lembre-se delas regularmente. Não esqueça o esforço destas gerações. Desta forma, você torna-se uma pessoa sensível, responsável. Ofereça suas preces aos antepassados e cuide dos seres viventes que compartilham deste mundo, sejam plantas ou animais; eles também contribuem para o seu bem-estar, direta ou indiretamente. Também, ofereça comida àqueles que não estão tão bem como você. Trate o hóspede ou qualquer pessoa como o próprio Senhor, seja ele um santo ou uma pessoa comum. Você se sentirá abençoado que as pessoas venham até você. Tudo o que você tem não é seu próprio mas lhe foi dado em custódia. E ao final do dia faça uma prece: “Ó, Senhor! Abençoe-me e perdoe-me se eu tiver cometido, conscientemente ou não, ações que porventura não estejam em harmonia com o universo”.

Há obrigações que devem ser feitas estejam elas em conformidade ou não com os seus gostos e aversões. Elas têm que ser feitas. Faça de forma feliz aquilo que é esperado de você. Então você estará em harmonia com o Universo, com o Senhor, com os Deuses. Isto lhe dará uma visão, uma certa condição mental. E, então, você terá que se expor ao ensinamento sobre o Ser e com isto certamente você obterá o conhecimento de si mesmo. Gostos e aversões não são problemas, pois eles serão neutralizados por essa atitude. Isto é o que chamamos de dharma. Não é uma obrigação a uma religião; é algo inevitável. O indivíduo deve compreender o que é certo e o que é conveniente. Convenções, quando compreendidas, evitam conflitos e, portanto, são importantes. Nós aprendemos sobre elas enquanto crescemos e vemos as suas belezas. Isto é karmayoga; não há nada que se possa fazer separadamente. Viva a vida de forma apropriada e expressivamente; com relação a isso não há escolha. Aceite de forma feliz tudo o que vier para você e gostos e aversões serão incapazes de perturbá-lo. Desta forma karmayoga é a yoga da atitude com relação à ação e ao seu resultado.

*Traduzido do livro Talks on Upadesasaram - Essence of The Teaching by Ramana Maharshi, Cap. 6 - págs. 24, 25 e 26.

Fonte: http://www.vidyamandir.org.br/swamiharmonia.html

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